crítica

Leite Derramado: por que não gostei do último livro do Chico Buarque

Por que não gostei do último livro do Chico Buarque

por Martha Lopes - 16 de julho de 2009
Chico Buarque é um desses "monstros sagrados" da cultura brasileira: por medo ou excessiva admiração, quase nenhum crítico tem coragem de cutucá-lo -- nem com vara longa. Isso ficou óbvio com o lançamento do último livro do compositor, "Leite Derramado" (Companhia das Letras, 200 páginas), obra que foi festejada com discrição e desconforto pelos grandes veículos. Mas, ao ler o livro, é difícil não se incomodar: a prosa é quadrada e pouco inventiva, e a obra ainda enfrenta dificuldades para sustentar seus temas.

TEXTO QUADRADO

A história se passa dentro de um hospital, em que o moribundo Eulálio conta o que recorda de sua vida a uma jovem enfermeira, por quem parece ter se apaixonado. Já no desenrolar do livro há uma contradição incômoda. Em algumas passagens, Chico parece querer dar à narrativa um tom meio de delírio, de sonho, para que o leitor perceba que aquelas memórias estão sendo contadas por uma pessoa já meio senil.
No entanto, a prosa que o autor constrói é bastante formal. Ele não imprime vícios de linguagem ou de oralidade, nem segue esta linha meio onírica com certa constância. Quando inclui algo desse tipo, soa um pouco artificial -- uma espontaneidade forçada em um texto quadrado --, como no trecho a seguir:

"Às vezes também o chamava para ficar por ali à disposição, porque a quietude da fazenda me aborrecia, naquele tempo a gente era veloz e o tempo se arrastava. Daí a eterna impaciência, e adoro ver seus olhos de rapariga rondando a enfermaria: eu, o relógio, a televisão, o celular, eu, a cama do tetraplégico, o soro, a sonda, o velho do Alzheimer, o celular, a televisão, eu, o relógio de novo, e não deu nenhum minuto." (p. 19).

Deixando a questão estrutural, falta fluidez e inventividade também à trama. O livro trata dos temas -- o racismo e a decadência da elite brasileira -- com pouca originalidade e alguns clichês. O senhor preconceituoso lembra-se, por exemplo, de sentir atração pelo escravo negro da fazenda quando era criança -- um jeito meio manjado de relacionar desejo, relações de poder e preconceito.

O mais interessante é concluir que, no fim, parecem faltar malemolência e soltura -- qualidades que o Chico aplica com maestria em suas composições musicais. No terreno da música, ele é inegavelmente um rei soberano, um "monstro sagrado"; já no da literatura... fica a dúvida.
Últimos comentários
  • ney messias - 19/07/2009 às 17:05:14

    crítcia corajosa

    Marthíssima muita coragem criticar monstros sagrados.Mas quando a crítcia é bem escrita os monstros acabam ruindo. Pra mim o chico como escritor é um óoootimo compositor

  • Ader Gotardo - 20/07/2009 às 09:21:13

    Chico…

    Como não sou muito conhecedor/admirador do Chico, usarei no futuro esse senso crítico muito bem justificado caso algum dia eu resolva conhecer o compositor/escritor/pegador em algum de suas obras.

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