cuide de você
Sophie Calle e Marina Abramovic
Artistas fazem arte com suas vidas
por Adriana Guivo - 21 de julho de 2009
Vieram a São Paulo, no intervalo de um ano, duas das artistas da atualidade que mais admiro: Marina Abramovic e Sophie Calle. Performáticas, elas são o que fazem, com o risco de se expor ao se autorretratar. Tive o privilégio de ver suas mostras e ouvi-las em palestras lotadas, com um público ávido por palavras que falassem o que por ventura seus trabalhos ainda não tivessem dito.
Suas trajetórias já contabilizam pelo menos três décadas. A força de seus trabalhos é representativa do que há de mais contemporâneo, e embora busquem suas inspirações no cotidiano palpável, suas ações e intenções são complexas e difíceis de serem captadas.
Um corpo para moldar
Marina Abramovic, iugoslava, toca em feridas fundas e humanas, embora pertencentes a seu universo particular. A parte que ecoa no espectador pode causar uma dor similar à que a artista sente na pele. Ela faz do seu corpo o suporte para sua arte. Afinal, por que esculpir ou pintar sobre tela se o alcance de um gesto sobre si mesmo pode dizer muito mais intensamente o que se quer, sobre o que é ser mulher em final e início de séculos?

Escovar os cabelos à exaustão. Com uma faca, desenhar no próprio ventre um pentagrama, indo ao limite de desmaiar pelo sangue esvaído do corte. Caminhar ao longo da Muralha da China com seu então marido Gulag, partindo cada um de uma extremidade; o encontro no ponto de cruzamento selaria a separação, registrada em vídeo. Disponibilizar objetos diversos para interação do público, como escova, tesoura, bala, revólver e ela própria; um afago ou um tapa eram possibilidades e todo gesto era perigosamente bem-vindo. Inclusive um tiro.
Reconheço em Abramovic uma agressividade que não condiz com sua imagem de mulher comum, a mulher que vi elegantemente apresentar os slides do que faz e que ouviu por longos minutos uma salva de palmas sinceras. O fundamental em Abramovic me parece ser explorar infinitamente um corpo que por hábito apenas come-bebe-dorme; torná-lo um corpo tão moldável quanto qualquer outro material de base para a arte. E encontrar um ponto-limite onde se possa chegar sem ser com a própria morte.
Entre o público e o privado
Convidar um estranho para dormir em casa a fim de fotografá-lo. Indagar um cego sobre a beleza e buscar reconstituir o que foi descrito. Filmar os últimos instantes de vida da mãe e apresentá-los sem edição. Ouvir histórias para dormir no alto da Torre Eiffel, num quarto provisório. Pedir que uma carta de término de relacionamento seja compreendida por outras 107 mulheres.
Se viver é arte em si, fica mais fácil compreender como esse conjunto de ações é ao mesmo tempo o corpo de trabalho da francesa Sophie Calle e sua história de vida particular. Há muito que elementos do cotidiano fazem parte das reflexões artísticas – talvez desde que um mictório adentrou um espaço de museu sem estar num banheiro. O limite entre o público e privado, porém, sempre foi muito bem delineado. No entanto, Sophie extrapola: ao longo dos últimos trinta anos se dispôs a observar e a ser observada como um objeto de arte – mas não como mulher-objeto ou integrante de um reality show, espetacularizando cada gesto a seu redor.
A artista cria situações para viverem e sobreviverem como arte. O que faz não se resume à prática do voyeurismo gratuito, mas a fazer da vida um laboratório de experimentações livres, em que o imprevisível, proveniente do gesto do outro, traz a peculiaridade necessária para conceber algo sem igual. E o outro é apenas coadjuvante da criação; o trabalho é autoral e pertence à ela.
Cuide de você
A presença da artista e de seu ex-namorado na Flip 2009 causou um furor inesperado em se tratando de artistas apenas ligeiramente conhecidos no Brasil. Sophie considera que a mesa-redonda de que ambos participaram concluiu o conceito da mostra “Cuide de você”, em cartaz no Sesc Pompeia. 
A instalação é esteticamente linda e similar a montagem original na Bienal de Veneza de 2007, apenas um pouco mais espaçosa. Nela, a personagem principal não é nenhum dos artistas, mas o email-carta que pôs um doloroso fim ao relacionamento entre Sophie e o senhor X. A identidade dele só se tornou pública pela vontade do próprio remetente, Grégoire Bouillier (saiba mais sobre ele no link). E o que era um monólogo amoroso, tornou-se um diálogo. Ou assunto de domínio público.
A carta foi interpretada por 104 mulheres, duas marionetes e uma cacatua, e a individualidade dessas atuações foi respeitada para criar ambientes únicos nas fotografias e vídeos, bem como nas transcrições remodeladas do texto. Nunca um fora foi tão esmiuçado em busca de compreensão e de uma resposta.
Expor-se enquanto objeto de arte é um risco, ainda mais quando pontos extremos dos sentimentos humanos são tocados. No entanto, é uma forma de entender e digerir o que por vezes é tido como tão banal: a própria vida. Essas duas mulheres são ávidas pelo que fazem. E alimentam intensamente a arte contemporânea.
"Cuide de você" por Sophie Calle no Sesc Pompeia até 07 de setembro. Rua Clélia, 93 - Lapa. (11) 3871-7700
Últimos comentários
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Thiago Machado - 27/07/2009 às 17:40:42
Muito bom
Não conhecia o trabalho destas artistas! Muito interessante! E parabéns pela matéria Adri! Excelente!
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Leila Loureiro - 27/07/2009 às 21:25:14
título
Guivo, excelente teu olhar sobre as duas artistas. Já conhecia a Sophie e devo ir a Sampa só para assistir a mostra...a Marina foi um achado. simplesmente amei a 'evasão de privacidade' que as duas artisticamente articulam. parabéns pela matéria e pelo site!











