vão deixar você na mão

Uma busca por literatura erótica atual

Um breve panorama da produção contemporânea do gênero

por Martha Lopes - 5 de agosto de 2009
Quando se fala em literatura erótica o mais frequente é pensar nos clássicos do gênero. Em, por exemplo, Marquês de Sade -- autor de obras como "A Filosofia na Alcova", em que mistura sadomasoquismo a uma panfletária defesa da libertinagem --, em Henry Miller -- com "Trópico de Câncer" e "Trópico de Capricórnio" -- e em D. H. Lawrence -- que escreveu "O Amante de Lady Chatterley", meio morno no erotismo, mas significativo na defesa da busca da sexualidade pela mulher.

Todos esses livros se encontram em um ponto: exploram cenas sexuais com riqueza de detalhes e inevitavelmente provocam excitação, mas não deixam de ser grande literatura -- abusando de recursos estilísticos e narrativos, gerando reflexões e fugindo da finalidade pornográfica, em que o fim maior é somente a excitação sexual.

Hoje, livros e mais livros eróticos recheiam as estantes das livrarias e as bancas de jornais, naquelas edições em papel-jornal com nome de mulher, no melhor estilo brega "Sabrina" e companhia. Mas há títulos que valem a pena conferir, apesar de, na maioria, não seguirem a abordagem dos clássicos.

Quadrinhos


Como conseguem conciliar texto e imagens, os livros de histórias em quadrinhos são muito bem-sucedidos quando enveredam pelo tema da sexualidade. E não é só de Milo Manara que vive este segmento. Há inclusive coleções e séries especiais de editoras, como a Ópera Erótica, da Martins Fontes, e a Eros, da Conrad. Entre toda essa gama de opções, pinço dois títulos.

"Omaha" (Conrad, 136 páginas) é um livro bastante inusitado. Relata a história da gatinha Omaha, uma stripper que tenta sobreviver na cidade grande. Em seu mundo, animais como galinhas, porcos e gatos têm corpos, rotinas e vidas humanizados -- uma sacada interessante; quem melhor do que os bichos para dar vazão aos nossos instintos animais? Segundo o criador de "Omaha", Reed Waller, "seres humanos, por mais cuidadosamente desenhados que fossem, nunca pareceriam tão naturais quanto bichos; são uma 'imitação' de gente muito óbvia".

Através de desenhos picantes, as páginas de "Omaha" abordam o submundo da noite, com atmosfera noir, crimes, sexo, mistério e perseguições. Também tratam do feminismo e da liberação sexual e satirizam as leis da época acerca de danças eróticas em casas noturnas. O volume é uma coletânea dos quadrinhos publicados nos EUA nas décadas de 1980 e 1990. O curioso é que o criador e quadrinista Reed Waller e a roteirista Kate Worley tiveram um relacionamento amoroso durante toda a série. Com o fim do romance, "Omaha" parou de ser publicado.

Outra obra erótica de quadrinhos que merece destaque é "Morango e Chocolate" (Casa 21, 144 páginas). Nela, a parisiense Aurélia Aurita conta o começo de seu relacionamento com Fréderic, com quem foi se encontrar no Japão, após se conhecerem em seu país. O interessante do livro é, diferentemente de "Omaha", os traços quase infantis e feiosos que a história combina a sexo explícito. Seu maior mérito é construir uma visão feminina das relações, abordando preocupações com lingerie e com o próprio corpo, a descoberta do corpo do outro, situações constrangedoras etc.

Para chocar e falar da própria vida

Escritora Hilda Hilst, autora de Perturbar leitores usando sexualidade é difícil em um tempo de tantas obviedades e banalidades. Mas ainda há livros capazes de gerar esse desconforto, de mexer com o senso comum. É o caso de "O Caderno Rosa de Lori Lamby", de Hilda Hilst (Globo, 132 páginas). Ele nada mais é do que o diário de uma garotinha que, no começo, tem 8 anos de idade, e cujos relatos giram em torno de sua atividade sexual -- iniciada pelos próprios pais, que prostituem a filha. Precisa dizer mais?

O maior incômodo que o livro gera é o fato de Lori Lamby sentir prazer na relação com os clientes. Um prazer infantil e ingênuo, por um lado, por não saber direito como conduzir o sexo, e, por outro, bastante livre e maduro, sem amarras. Há ainda um aspecto metalinguístico intrigante: sabemos que o pai de Lori é um escritor fracassado, a quem o editor aconselha que escreva livros pornográficos e chocantes. Fica a dúvida: Lori existe ou é apenas criação literária?

Outra obra que gerou polêmica foi "A Vida Sexual de Catherine M." (Ediouro, Autora Catherine Millet216 páginas), da francesa Catherine Millet, que esteve na última Festa Literária de Paraty (Flip). Em suas páginas, a crítica de arte -- já conhecida quando decidiu escancarar a própria vida -- relata suas estrepolias sexuais que começaram com a perda de sua virgindade. Entre elas, participações em surubas de até 150 pessoas, em que, alerta ela, "nem todas iam para transar".

O livro de Catherine é, na verdade, mero veículo de registro da prática do sexo livre. Sua descrição das cenas e das sessões de sexo são tão meticulosas e formais que, ironicamente, se afastam do erotismo. Como em "sempre havia alguém para me cumprimentar pela cor morena de minha pele e pelo meu savoir-faire no uso da boca" (p. 22).

Grande literatura


Merece o maior destaque no gênero o recente "Elogio da Madrasta" (Alfaguara, 160 páginas), de Mario Vargas Llosa -- lançado no Brasil este ano, mas escrito na década de 1980 --, que resgata a proeza dos clássicos, com a união de uma atmosfera erótica a bom uso de recursos narrativos. O livro traz uma história envolvente, do jogo de sedução de um menino, Alfonsito, com sua madrasta, Lucrecia, recém-casada com Rigoberto -- um homem que a faz feliz sexualmente, mas que tem práticas exóticas e obsessivas de limpeza.

É fascinante como Lucrecia é uma figura transformadora, que energiza o ambiente e os dois "homens" com quem vive. Também é incrível a forma como Llosa pontua capítulos com quadros presentes na casa, que acabam descrevendo mitos e metáforas que se relacionam a alguma situação do triângulo amoroso. Tudo isso, aliado à prosa leve e deliciosa do escritor, faz dessa obra um primor na literatura e no erotismo -- ainda que se refira, muitas vezes, a um amor infantil. Veja o trecho:

"Alfonsito parecia concentrado nas mãos de sua madrasta. Ele as segurava e beijava devagarzinho, timidamente, com devoção. Depois, enquanto as esfregava em sua bochecha acetinada, Dona Lucrecia ouviu-o murmurar baixinho como se só se dirigisse aos dedos delgados que apertava com força: 'Eu amo muito você, madrasta. Muito, muito... Nunca mais me trate assim, como nestes dias, porque vou me matar. Juro que vou me matar." (p. 90)

Para se deliciar às colheradas.
Últimos comentários

Nenhum comentário para exibir, seja o primeiro a escrever um!

Faça o seu comentário

Top 5 as mais clicadas

Vídeo

Publicidade
Colherada no Twitter
Ressaltamos que nenhum estabelecimento foi incluido neste guia por ter feito publicidade em qualquer publicação nossa e que nenhum tipo de pagamento influenciou as resenhas. As opiniôes publicadas neste site são dos escritores do Colherada Cultural e são totalmente independentes