cinema alemão pós queda do muro

Ver "A Vida dos Outros" em Berlim

por Sarah Oliveira - 12 de novembro de 2009
Museu Checkpoint Charlie no bairro de KreusbergEm agosto fui prestigiar o Festival de Cinema de Locarno na Suíça, aproveitei para dar uma passeada e fui até Berlim, que é incrível. Atualmente a cidade tem um significado simbólico para mim. Ando estudando mil coisas sobre ela, especificamente sobre o cinema alemão pós queda do muro. Nessa linha, tem um filme que não me saiu da cabeça, principalmente enquanto eu passeava por Kreuzberg, bairro que hoje representa a parte oriental da Berlim dividida.

Trata-se de “A Vida dos Outros” – ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano de 2006, disponível em DVD. Ele mostra a mesma Berlim Oriental das produções “Adeus, Lênin” e “Asas do Desejo”, porém aponta claramente as dificuldades e crueldades daquele contexto político.

Cena do filme O ano é 1984. A Glasnot ainda não havia surgido. A população da República Democrática da Alemanha vivia sob o rígido controle da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Comunista. Passando pelo Haus am Checkpoint Charlie – museu que fica entre o antigo ponto de acesso entre as duas Berlins e conta a história da queda do muro –, é impossível parar de pensar na cena inicial do filme. É quando já sentimos o drama, literalmente. Na Academia da Stasi, o “general” “ensina” como lidar com o inimigo num interrogatório – fazendo uso de cerca de 40 horas de trabalho até o interrogado se esgotar. 

A Stasi propõe regras e conceitos de uma política agressiva que só servia para espionar todo e qualquer cidadão passível de representar a mínima ameaça para o regime de partido único. A cultura também era totalmente afetada. E o filme traduz isso. Nele, o ministro resolve fazer uma “faxina” na classe teatral.

Pedaço do muro de Berlin no bairro de KreusbergO principal escritor da RDA, o fictício Georg Dreyman (Sebastian Koch), é o único subversivo que é lido no Ocidente também. Fã de Brecht e de Beethoven, ele é envolvido com a causa socialista. Sua namorada é Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), a atriz de teatro de maior prestígio e fama nos palcos da Berlim do leste.

Espectador disso tudo, o capitão Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), assim como todos da Stasi, age em nome da pátria, do partido e dos seus ideais políticos para a “proteção de sua nação”. Tortura, espiona e castiga visando manter o Estado e a ideologia livre de ataques. Fica a cargo dele espionar o escritor Dreyman. Porém, enfrentará uma tentação: a cultura.

É interessante citar a cena em que ficamos sabendo do encantamento de Lênin diante de “Apassionata”, de Beethoven. Segundo o filme, Lênin diz: “Se eu continuar ouvindo, não levarei a cabo a revolução”. Dentro desse contexto, o filme, por sua vez, mostra o espião se emocionar ao ouvir, secretamente, o escritor tocando “Sonata para um Homem Bom”.

O filme está disponível em DVDEssa provocação nos faz refletir sobre arte, ética, cultura e política – tudo isso numa Berlim Oriental rígida, onde os artistas que contrariavam o governo eram punidos e presos, ficando sem contato humano por mais de 10 meses e, sem nenhum uso da força, eram libertados para nunca mais voltar a criar o que criavam antes.... Mesmo assim, quem aprecia música pode ser uma pessoa má? É possível a consciência política dar lugar a uma emoção despertada pela arte, a uma consciência artística, cultural? É o foco de discussão que “A Vida dos Outros” proporciona.

Já que esta semana comemora-se os 20 anos da queda do muro, fica aqui minha dica de um ótimo filme para você alugar em DVD.
Últimos comentários
  • mayara leite - 19/08/2009 às 11:01:11

    eu amei esse filme

    eu vi no cinema "a vida dos outros". no começo achei arrastado. depois, fiquei presa na cadeira até o final do filme. adorei seu texto, sarah. adorei as fotos de berlin. vc que tirou? beijos

  • Adriana Guivo - 19/08/2009 às 11:01:53

    Brecht mentor

    O mais belo de perceber essa força do 'homem bom' é ver como ele se expande entre aqueles que se dedicam à ideia. Brecht como mentor, nítido na sua peça "A Alma Boa de Setsuan". Quem vir a encenação com Denise Fraga vai entender que a ideia foi também levada adiante em "O Contador de Histórias". Bondade multiplicada.

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