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"Há que ver toda vida com olhos de criança", texto de Henri Matisse

por Adriana Guivo - 30 de agosto de 2009

"Nature morte au magnolia", 1941 © Succession H. Matisse"Criar é próprio do artista – onde não há criação, a arte não existe. Mas seria um engano atribuir esse poder criador a um dom inato. Em matéria de arte, o criador autêntico não é apenas um ser dotado, é uma pessoa que soube ordenar, tendo em vista o seu objetivo, todo um feixe de atividades de que a obra de arte é o resultado. É por isso que para o artista a criação começa na visão. Ver já é uma função criadora que exige um esforço.

Tudo o que vemos na vida corrente sofre mais ou menos a deformação que os hábitos adquiridos provocam, e o fato é talvez mais sensível numa época como a nossa, em que o cinema, a publicidade e as revistas nos impõem diariamente uma quantidade de imagens já prontas, que são de certo modo, no âmbito da visão, o que é o preconceito no âmbito da inteligência. O esforço necessário para se libertar disso exige uma espécie de coragem; e essa coragem é indispensável ao artista, que deve ver todas as coisas como se as visse pela primeira vez: há que ver toda a vida como quando se era criança; e a perda dessa possibilidade impede-vos de vos exprimir de maneira original, isto é, pessoal.

Tomemos um exemplo: penso que nada é mais difícil a um verdadeiro pintor do que pintar uma rosa, porque para isso, precisa primeiro de esquecer todas as rosas pintadas. É um primeiro passo para a criação ver todas as coisas na sua verdade, e isto supõe um esforço contínuo.

Criar é exprimir o que se tem em si. Todo o esforço autêntico da criação é interior. Haveria ainda que alimentar o sentimento, o que se faz com a ajuda dos elementos que se tiram do mundo exterior. Aqui intervém o trabalho, pelo qual o artista incorpora, assimila gradualmente o mundo exterior, até que o objeto que desenha tenha se tornado uma parte de si mesmo, até que o tenha em si e possa projetá-lo na tela como sua própria criação.

Quando pinto um retrato, tomo e retomo o meu estudo, e de todas a vezes é um novo retrato que faço; não o mesmo que corrijo, mas um outro que recomeço; e é sempre um ser diferente que tiro de uma mesma personalidade. Aconteceu muitas vezes, para esgotar completamente o meu estudo, inspirar-me em fotografias de uma pessoa em idades diferentes: o retrato definitivo poderá representá-la mais jovem, ou sob um aspecto diferente daquele que tem no momento em que posa, porque é esse aspecto que me pareceu o mais verdadeiro, o mais revelador da sua personalidade.

A obra de arte é assim o fim de um longo trabalho de elaboração. O artista utiliza tudo aquilo que em seu redor é capaz de alimentar a sua visão interior, quer diretamente, quando o objeto que desenha deve figurar na sua composição, quer por analogia. Põe-se assim em estado de criar, enriquecendo-se interiormente com todas as formas de que se torna senhor e que um dia ordenará segundo um ritmo novo.

É na expressão desse ritmo que a atividade do artista será realmente criadora; para aí chegar, será preciso tender mais para o despojamento do que para a acumulação de detalhes. Escolher, por exemplo, no desenho, entre todas as combinações possíveis, a linha que se revelar plenamente expressiva e portadora de vida; procurar essas equivalências através das quais os dados da natureza se encontram transpostos para o domínio da arte.

Na Nature morte au magnólia, traduzi através do vermelho uma mesa de mármore verde; precisei de uma mancha preta para evocar o reflexo do sol no mar; todas estas transposições não eram de maneira alguma o resultado do acaso ou de uma fantasia qualquer, mas sim o resultado de uma série de pesquisas, após as quais essas cores me apareceram como necessárias, na sua relação com o resto da composição, para dar a impressão pretendida. As cores e as linhas são forças, no seu equilíbrio, reside o segredo da criação.

É nesse sentido, me parece, que se pode dizer que a arte imita a natureza; pelo caráter de vida que um trabalho criador confere à obra de arte. Então a obra mostra-se tão fecunda, e dotada da mesma vibração interior, da mesma beleza resplandecente que possuem todas as obras da natureza. É preciso que haja um grande amor, capaz de inspirar e suportar esse esforço contínuo para a verdade e também essa generosidade e esse despojamento profundo que a gênese de toda obra de arte implica. Mas não estará o amor na origem de toda criação?"

Henri Matisse

Original em francês oferecido pelo Centre Georges Pompidou.

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