"Person" em dvd
Marina Person fala sobre o lançamento do documentário "Person" em DVD
Em entrevista, ela conta como foi o processo de criar um filme que conta a história de seu pai, com quem conviveu pouquíssimo tempo
por Sarah Oliveira - 16 de outubro de 2009
Marina Person lançou neste sábado (17) seu DVD "Person". Eu vi esse documentário em sua estreia nos cinemas, em 2007, e posso afirmar aqui que se trata de um filme repleto de belas imagens e depoimentos emocionantes que revelam a trajetória de um dos mais importantes cineastas brasileiros, Luiz Sérgio Person. Ele morreu precocemente em um acidente automobilístico no ano de 1976 deixando a esposa e também cineasta Regina Jeha, e duas filhas, Marina e Domingas. Por meio de entrevistas com amigos, familiares e pessoas que trabalharam com o cineasta, Marina Person resgata com propriedade e muito afeto um momento culturalmente importante da cinematografia nacional.
"Quando entrei na faculdade de cinema, tive a chance de entender melhor o trabalho do Person e, consequentemente quem ele era. Sou muito grata ao cinema porque me trouxe muito do meu pai. Resolvi dirigir o documentário quando percebi que fazer um filme me ajudaria muito, pensei que essa jornada de uma filha procurando saber quem era seu pai - e qual o legado que esse pai tinha deixado - poderia dar um filme interessante. Quando finalmente consegui realizar o documentário, busquei equilibrar o lado pessoal de pai de família, marido, amigo e profissional de cinema, teatro, publicidade".
Como cineasta, Marina consegue, por exemplo, deixar claro no longa-metragem o interesse de seu pai pela utilização da temática social em seus filmes sem deixar de falar também de sua paixão pelo teatro (Person fundou o Auditório Augusta, em São Paulo, onde dirigiu espetáculos de grande repercussão como “El Grande de Coca-Cola”, “Orquestra de Senhoritas” e “Entre quatro paredes”).
Todo o processo da realização de "Person" demorou oito anos e entre as primeiras entrevistas e a cópia número um para o cinema, o filme passou por várias fases, indo de curta-metragem e telefilme até finalmente chegar no formato do DVD que está sendo lançado. Num papo comigo, ela fala um pouco sobre sua relação com o pai e como foi realizar esse trabalho.S: Seu pai te deixou uma herança cultural rica. Como e quando você entrou em contato com ela de fato?
Meu pai morreu quando eu era muito pequena, mas ainda assim me lembro de muitos momentos da gente juntos. Algumas coisas eu só fui entender completamente mais tarde, o que, para mim, era uma maneira de me comunicar com ele, já que a gente teve tão pouco tempo. Depois que ele morreu, minha mãe se encarregou de sempre lembrar das coisas que ele gostava, das coisas que gostaria que eu e minha irmã conhecêssemos. Também nos deixou um acervo pessoal de livros, quadros, gravuras, fotos... Isso tudo nos coloca em contato com meu pai e deixa uma pista: quem era ele?
S: O que você acabou descobrindo?
Sei, por exemplo, que ele gostava bastante do cinema que se fazia na Europa nos anos 60, tanto que foi lá que buscou aprender a fazer o que mais gostava: cinema. Estudou durante um ano na Itália e teve contato com grandes figuras lá, além de tomar conhecimento de toda a filmografia local, que no caso eram os filmes do neorealismo italiano e da nouvelle vague francesa.
S: Por quais cineastas você passou a se interessar por causa dele?Talvez hoje alguns dos meus cineastas preferidos sejam influência dele mesmo... [François] Truffaut, [Eric] Rohmer, [Roberto] Rossellini, [Federico] Fellini…
S: Fora sua produção cinematográfica, quais outras referências culturais ele passou pra vocês (para Domingas e para sua mãe, Regina)?
Ele se orgulhava muito da nossa cultura, gostava da literatura brasileira de Mario de Andrade, de Drummond, de Monteiro Lobato, cresci lendo esses livros. Era também admirador do teatro de Antunes Filho, de Cacilda Becker, de Zé Celso Martinez Corrêa.
S: Qual o trabalho dele que você mais gosta?
Eu gosto muito de "São Paulo S/A"(*), porque acho um filme que não envelhece. E acho que isso se deve ao fato de que o drama vivido por Carlos (Walmor Chagas) é universal, de desajuste com o meio, de inconformismo com modelos predominantes, que fala da angústia que nasce do desejo de pertencer a um outro universo. É uma história que se passa em São Paulo durante a industrialização, mas que poderia se passar em qualquer cidade do mundo, em qualquer época.
S: Pra quem você daria uma colher de chá no mundo cinematográfico?Ah, a colher de chá vai para o José Eduardo Belmonte, cineasta brasiliense que fez "Concepção" e "Se Nada mais der certo".
S: E pra finalizar, quem merece uma de sobremesa?
Sem dúvida eu daria uma colher de sobremesa para o Johnny Depp, que além de excelente ator, é lindo de morrer (risos).
Veja aqui trailer oficial do documentário.
(*) “São Paulo S/A” (1964) retrata o desespero e a alienação do cidadão médio diante do processo de industrialização da cidade de São Paulo no final dos anos 1950. Essa foi a grande estreia de Person como diretor de cinema. Três anos depois, ele lançou “O caso dos Irmãos Naves” -- um corajoso documento, exibido em plena ditadura militar - sobre um caso verídico de injustiça e abuso de poder ocorrido no interior de Minas Gerais durante o Estado Novo. Além desses, dirigiu também os filmes “Panca de Valente” (1968), “A Procissão dos Mortos“ episódio do longa-metragem “Trilogia do Terror” (1968) e “Cassy Jones – O magnífico sedutor” (1972), além do documentário “Vicente do Rego Monteiro” (1974).
Serviço:
Lançamento do filme "Person" em DVD.
Neste sábado (17), na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 17h.
Av. Paulista, 2073. tel: (11) 3170-4030.
Haverá um debate sobre a obra do cineasta com a presença de Marina e Domingas Person e Regina Jeha.
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Últimos comentários
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Carla Mitsy - 17/10/2009 às 20:09:23
Incrível!!!
Gostaria de parabenizar a você Sarah pela maravilhosa entrevista e a Marina Person por nos proporcionar essas colheradas de cultura tão bem servidas nesse DVD emocionante e apaixonante. Sinto falta de boas conversas como essa na mídia atual e reforço o pedido acima: Sarah, encarecidamente eu peço, mais matérias com a Marina por aqui. Por favor!!! Parabéns pelo belíssimo trabalho. Abraço, Carla Mitsy
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Penelope - 17/10/2009 às 17:26:30
Mais Mais Mais...
Primeiro parabéns as duas (Marina e Sarah) dois talentos maravilhosos! A entrevista me deixou curiosíssima a respeito do documentário... PS: Sarah, vc podia dar mais uma 'colher bem grande de sobremesa’ para nós e fazer outra super entrevista com a Marina (Quero mais, quero mais, quero mais...)
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