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Erasmo Carlos: "Quem sou eu pra virar cult?"
Tremendão fala de vida pessoal e por que pega bem gostar dele
por Sarah Oliveira - 5 de novembro de 2009
Modesto, divertido e com estilo afiado em cada resposta, Erasmo Carlos é peça rara. No fim de outubro, quando veio pra São Paulo lançar sua turnê por aqui [ele entrou em turnê com o show "Rock’n’Roll”, do CD de mesmo nome, indicado ao Grammy Latino], estava tão empolgado que disse em entrevista ao Colherada que quem tivesse em sã consciência não perderia seu show por nada. Ele ainda mandou um: "pode colocar isso, meu bem, pois meu show é imperdível mesmo!" Ele fala e ri de si mesmo. Quando pergunto sobre o livro ("Minha Fama de Mau", Ed. Objetiva) também recém-lançado, ele se emociona: "Só lembro de coisas boas. Não quero sofrer ou me fazer de vítima. Quero um registro feliz. E meus filhos e netos também".
E o que eles trazem como bagagem musical? "Como bagagem musical eu não sei, pois cada um tem um gosto. Mas te digo em alto e bom som que a maior herança que eles carregam é o amor que esmero em dar pra eles. Hoje em dia, eu sou um pãe."
Leia a entrevista e saiba mais sobre o Tremendão:
S: Você considera o livro uma autobiografia ou relato de memórias?
Nunca, biografia é um lance muito sério. Não curto autobiografia pois o cara não vai falar mal dele mesmo, sabe? Então ele sempre se coloca como vítima ou puxa a sardinha para o seu lado. Por isso achei mais honesto de minha parte assumir que isso é um livro de memórias e revelar minhas boas lembranças pra todos. Mas só as boas... (risos)
S: Disse que quis fazer um livro feliz. Acha que conseguiu?
Opa! Com certeza. Conto só passagens boas da minha vida. Sério, Sarah, não queria lembrar coisa ruim, de jeito nenhum. Isso iria me fazer mal. Te dou um exemplo, não falo do Tim [Maia] como se ele tivesse morrido, e sim conto coisas dele no presente.
S: A intenção de comemorar os 50 anos de carreira através de um registro como este é algo que sempre desejou ou a ideia surgiu recentemente?
Você acredita que foi uma coincidência? Já era pra ter saído. Há muito tempo que comecei, forçando minha memória mesmo. Fiquei escrevendo histórias engraçadas de minha vida e depois fui selecionando o que era da infância, da adolescência, da época da jovem guarda... Aí, a editora disse que poderia colocar um fio condutor nessas memórias e fazer uma minibiografia de minha vida, e eu topei. Calhou de ficar pronto este ano, junto com os 50 anos de carreira.
S: Como se organizou para escrever o livro? Quem ou o que mais te ajudou nesse processo?
Te falo que foram lembranças aleatórias, viu? Por exemplo: "Ah, no dia que rolou isso, eu tava indo gravar o programa tal e estava morando em São Paulo. Ah! Isso foi da época da Jovem Guarda, pois lembro que escolhi esta roupa pra um show tal..." e assim por diante. Claro que sempre com uma visão divertida do que eu me lembrava. Eu não consultei ninguém, não! Pois cada um ia dar sua versão, e eu queria contar do meu jeito. Obviamente que fotos, amigos, meus filhos, o Alcides [seu secretário e fiel escudeiro das antigas] me lembraram de muita coisa... Ah! E vou te contar um detalhe que você não vai acreditar: escrevi TUDO a mão!
S: Mentira!
Juro! Escrever a mão foi a única maneira que encontrei de acompanhar a velocidade de meu raciocínio. E, acredite ou não, Sarah, toda semana, meu filho mais novo, Léo Esteves [vice-presidente da Coqueiro Verde Records], digitava pra mim. (risos) Isso mesmo, bixo. Eu ditava pra ele e ele digitava.
S: O lançamento do disco e do livro devem lhe mostrar que você atinge todo tipo de público. Mesmo quem nem era nascido durante o período em que você fez parte ativa da história do rock brasileiro. A que atribui isso?
Talvez porque eu realmente conheça todo tipo de público. Acho que esse é o segredo. Saio na rua e bato papo com o gari, com a secretária do cara pomposo, com o próprio cara, com a molecada, com meus contemporâneos. Tenho total noção de qualquer tipo de público. Eu os entendo plenamente, independente de sexo, de idade...
S: Sente que as pessoas se interessam pela sua história, pela sua imagem, não só pelo seu som?
Quando a nova geração me reverencia, eu paro para pensar e falo: "Puxa, a geração dos anos 1980 se manifesta até hoje a meu favor". As pessoas me reconhecem muito. Não esperava que isso fosse acontecer, não me deixaram de lado nem quando eu sumi ou quando passei por problemas. [Em 1995, Erasmo perdeu sua ex-mulher, Nara, mãe de seus 3 filhos e grande amor de sua vida, segundo ele. Para enfrentar a dor, compôs ao lado de Roberto “É Preciso Saber Viver” e seguiu com sua vida pessoal e profissional.]
S: Não acha interessante perceber que "pega bem" gostar de Erasmo?Não vá dizer que eu disse isso, hein? Imagina! Quem sou eu pra virar cult?
S: Mas é algo perceptível entre as gerações. Você nunca saiu de moda...
(risos) Quer saber? Acho que é porque eu perturbo todo mundo. Como compositor sou romântico, então pego o público do Roberto Carlos. Sou roqueiro e tenho meu público; sou samba-rock, eu atiro em todas as direções. Como um compositor brasileiro, sofro essas influências todas.
S: Quem do mundo da música você considera parceiro(s) hoje em dia?
Eu sinto sinceridade em quem me procura. Sabe? Meus parceiros musicais deste disco são Chico Amaral, Liminha, Patrícia Travassos [mulher dele] e Nando Reis.
S: O que ouve quando acorda?
O que o mundo me mandar. Pode ser o som da televisão ligada, pode ser música do rádio, o barulho da internet... O primeiro barulho da manhã já é música para mim. Mas vou te contar que o som do carro é a melhor prova final para conferir se a música está bem gravada, já reparou? Por isso, ouço meu CD no carro. Ouço de tudo para me informar, mas, em casa, o que eu ouço mesmo é rock'n'roll básico, aquele do início de tudo, dos anos 1950. E ouço muito João Gilberto. É o que fica no meu quarto. Meus vinis estão guardados a sete chaves.
S: E seus filhos e netos?
Antes de mais nada, eles herdaram meu amor, o que eu me esmero em dar pra eles é meu amor. Eu e minha mulher. Hoje em dia sou sozinho, então dou o amor de pai e de mãe e de avó. Bixo, hoje em dia, eu sou um pãe.
S: E o que eles ouvem?
Rock todo mundo gosta, né? E não? Mas meus filhos têm suas preferências. Tenho filho que gosta de samba-rock, outro de blues e o outro só ouve Motown [música negra dos anos 1970]. Meus netos curtem reggae e funk. Aquele pancadão, sabe? Eles chamam de "proibidão"! (risos)
S: E você ouve junto?Mas é claro! Quem entende de música gosta de tudo um pouco, fala a verdade! Tem que saber apreciar. Não dá pra gostar de uma coisa só. É como o homem e a mulher. Veja bem, o homem gosta de várias mulheres, cada uma tem sua curva. Não é mesmo, meu bem?
S: Navega na internet? Quais sites mais gosta?
Por enquanto, não sei como será no futuro, eu uso a internet exclusivamente para trabalho. No myspace eu entro direto, pois pra mim é trabalho. Entro diariamente. Mas twitter, facebook, essas coisas não tenho tempo. Ainda mais com a turnê. Entra no site pra saber as datas... Faço show diretão até o fim do ano, se Deus quiser!
S: Por último, uma "pergunta colherada cultural": quem merece uma colher de chá?
Caramba, Sarah! À queima roupa, assim? Pô, tô pensando em alguém muito legal que todos achem bacana eu lembrar... Sem dúvida alguma Wilson Simonal! Foi uma grande sacanagem o que fizeram com ele.
S: E em quem bateria com uma colher de pau?
Eu não bato com colher de pau. Se é pra bater, dou logo uma porrada. (risos) Brincadeira!
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Últimos comentários
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felipe baenninger - 05/11/2009 às 11:36:37
tremendão
esses dias vi um texto ele falando que não tinha covers hehe TREMENDÃO NEVER DIE
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Fabiana Meireles - 05/11/2009 às 11:41:51
Tremendão mesmo!!!
Sabe aquelas pessoas que vc gosta e nem se dá conta??? É ele mesmo, o "Tremendão"!!! Adoro o Erasmo ele me emociona e, já que o Brasil não é monarquia. Por que não dizer que ele tb é Rei? O Show que me aguarde... Vou pirar no Tremendão.
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