poesia
Em "Paranoia", Roberto Piva traduz caos urbano de São Paulo
por Martha Lopes - 9 de novembro de 2009
Não raro, poetas com um trabalho sensível e pungente são esquecidos pela história. Muitas vezes, isso se dá pelo fato de seu trabalho ler o momento em que é feito com tanta destreza e modernidade, que críticos e público são incapazes de compreender e admirar. Esse parece ser o caso de Roberto Piva. O paulistano marcou a literatura da década de 1960 com um lirismo violento que traduzia as mudanças pelas quais o mundo passava e o caos urbano de São Paulo.Nascido em 1937, teve seus primeiros poemas reunidos na "Antologia dos Novíssimos", em 1961. Depois vieram oito livros de poesias, sendo "Paranoia", de 1963, um dos mais conhecidos. Em 2000, o Instituto Moreira Salles relançou a obra, ilustrada com fotografias de Duke Lee, que, neste mês, ganhou nova edição.
O volume resulta em um alinhamento perfeito entre os poemas delirantes e as imagens caóticas. Piva transporta o lirismo paulistano para versos soltos, longos, sem métrica, rimas ou regularidades. Já no começo da década de 1960, fala de homossexualismo, marginalidade e desigualdade social. Descreve cenas e pensamentos desconexos que parecem se encontrar no caos urbano, fugindo do concretismo que marcava a época.
As passagens são pontuadas por referências à metrópole -- que, mais do que mera referência espacial, parece ser parte ativa desses sentimentos e fatos. Diz: "na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha alma". Ou ainda "meus êxtases não admitindo mais o calor das mãos e o brilho/ platônico dos postes da rua Aurora comichando nas omoplatas/ irreais do meu Delírio".
MOVIMENTO BEAT E PIVA
Há algo de beat na poesia desenfreada de Piva. Mas, ao contrário dos beats -- que são movidos, em sua prosa, pela "road trip" que alimenta a ficção e o amadurecimento com novas experiências --, Piva se encontra em sua própria cidade, principalmente no submundo, tomado pela sujeira, violência e comportamentos questionáveis do ponto de vista do senso comum.
O poeta provoca e constrói beleza mesmo diante desses elementos. Imagina outras cidades, porém, em vez de mergulhar na Pasárgada tranquila e idealizada de Manuel Bandeira, vislumbra, com ceticismo, um espaço tomado pela realidade ardorosa, da qual parecemos nunca poder fugir -- como se pode notar no poema abaixo.
Praça da República dos Meus Sonhos
A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde García Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lento Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa
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