Carmen Miranda na moda praia
Amir Slama: beachwear, homewear e música. O estilista manda ver em todas as áreas
por Sarah Oliveira - 17 de dezembro de 2009
Amir Slama tem uma fala tranquila e didática. Por isso, às vezes nem parece um estilista, e sim um comunicólogo. Durante uma conversa com ele percebe-se na hora que sua formação em História (graduado pela PUC/SP onde até já lecionou, isso depois de ter trabalhado como barman nas noites paulistanas para ajudar nos custos da faculdade) tem absoluta influência em sua obra e na maneira de ele expor suas ideias. "Não adianta ser um mestre da criação, tem que saber mostrar e colocar seu produto nos lugares certos, ou seja, não é só a criatividade que é instintiva, o restante tem que ser também." No bate-papo, Amir logo fala de seus assuntos preferidos, a começar pelo filhos, claro (ele tem dois: um que estuda Artes Plásticas e outro que ainda está no colegial), passando por viagens e por sua origem familiar (ele é filho de uma romena com um iraquiano que, apaixonado por Carmen Miranda, fugiu pro Brasil). Conta de tudo com o mesmo entusiasmo que fala de suas criações e novas empreitadas. Sua última foi uma viagem a negócios para o Japão.
Essa foi a terceira vez que ele esteve na capital japonesa: "Fui participar do 'Simpósio de Moda Brasil - Japão'. O evento foi sediado no Bunka Fashion University, em Tóquio, a escola de moda mais tradicional do país. Kenzo e todos os grandes mestres orientais da alta costura se formaram lá. Foi incrível! Tivemos várias mesas-redondas e debates e finalizamos com o próprio Kenzo contando da trajetória dele no mercado francês e japonês".
Amir é bastante prestigiado no universo da moda, tanto que a ABEST (Associação Brasileira de Estilistas, da qual ele é o presidente há quase cinco anos) foi quem o ajudou a organizar esse simpósio no Japão. "A ABEST começou comigo, Alexandre [Herchcovitch], Lino [Villaventura] e Walter [Rodrigues]; hoje tem 55 estilistas brasileiros. Montamos essa associação pois fazíamos ações fora do Brasil e percebíamos que trabalhávamos não só a moda, mas o comportamento, a música e a arte brasielira no geral. Não podíamos deixar de valorizar isso", diz.
Desde último mês de maio, quando se desvinculou da Rosa Chá, grife que criou há 16 anos e que foi responsável por transformar a moda praia brasileira em referência mundial, Amir vive pra lá e pra cá -- literalmente. Enveredou para o mundo da música e do entretenimento -- além de ser dono do restaurante 3P4 e da casa noturna Mokai, ele é um dos sócios do novo Club A. Descobriu que seu lado comunicador sempre falou alto, investiu nele até conseguir expressar sua criatividade sob uma pressão bem menor. "Eu estava preso na Rosa Chá e quando saí dessa gaiolinha apareceram espontaneamente mil coisas para eu fazer. Estava descolado do corpo e da alma e, até quando resolvi vender o resto de minha participação, sofri demais. Aquilo tinha sido minha arte, minha autoria por muito tempo."Para falar sobre todas essas mudanças e, claro, de moda, conversei com o estilista logo que ele voltou do Japão. Confira:
S: Como foi a decisão de deixar a Rosa Chá?
Eu tinha sido convidado por um pessoal do Sul [ele se refere à malharia catarinense Marisol, dona da grife Lilica Ripilica] para fazer uma junção que supria meus pontos fracos como logística, distribuição e produção. O que eu sempre quis era ficar com a parte de criação e comunicação, era meu sonho cuidar apenas disso, que é meu forte. Administração é fogo, né? Tudo começou em abril de 2006, quando vendi 75% da Rosa Chá para o grupo e me associei a eles. Era uma ideia muito bacana, mas não aconteceu como deveria essa sociedade e acabei me desligando totalmente agora em maio. Nada é por acaso, né? Um ano antes me mostraram o projeto do restaurante 3p4 e eu me encantei. Resgatei um pouco do que eu fazia quando estudante. Sabe que quando eu fazia faculdade de História eu trabalhava na noite como barman? A música era algo comportamental na minha vida. Mas a verdade é que estas sociedades em restaurantes e casas noturnas permitiram que eu ganhasse força para fazer moda de outro jeito.
S: De qual?
Eu, com a Rosa Chá, modéstia à parte, mudei o conceito do que era a moda praia, eu a levei ao conceito de moda mesmo, entende? Sinto que agora tenho um tempo para fazer coisas importantes. Por exemplo, nesse momento estou revendo modelagem, analisando matéria-prima. Nunca conseguia fazer isto!
S: Li que o Salão Casa Moda, que aconteceu em novembro de 2009, deu tão certo que você vai dar continuidade a ele...Foi ótimo. A gente pode expor pré-coleções de inverno de cinquenta marcas: Emannuele Junqueira, Glória Coelho, Reinaldo Lourenço, Alexandre Herchcovitch, Lenny, Iódice, Juliana Jabour... Vou fazer outro Salão Casa Moda agora em janeiro durante o SPFW com coleções de inverno. Em maio, já está fechado o Salão com as pré-coleções de verão e em junho vamos expor as coleções de verão junto com SPFW de verão. É um salão de negócios, funciona assim: os logistas vão lá ver as marcas e fazer pedidos.
S: Um tipo de evento de moda comum fora do Brasil.
Sim, é claro que pegamos essa expertise de feiras e salões gringos, mas foi muito organizado. Desde o jeito que colocamos a roupa na arara, sabe? Ficou um conceito chique com decoração com móveis do Phillipe Starck, os estilistas não podiam levar nada além das roupas, cada espaço estava seguindo a mesma linha.
S: E sua nova grife de beachwear? A nova marca que leva seu nome deve abrir sua primeira loja em 2010, em São Paulo. Também estão planejadas lojas no Rio e em Nova York, é isso?
Minha marca será comercializada no ano que vem. Já criei a coleção e tenho peças pré-modeladas e pilotadas, estou ensaiando, me divertindo... Também fiz minha primeira coleção para a C&A, que entra nas lojas no fim de dezembro. Fiz moda praia com influência dos anos 80, na moda punk e suas tatuagens. Foi meu primeiro trabalho para eles e o fiz de forma autoral, sem deixar de ser comercial. Fica nas lojas durante dois meses. No exterior, as grandes lojas de departamentos como a H&M e a própria C&A gringa, também fazem isso. Acho bacana a C&A fazer o mesmo com desginers brasileiros. Hoje, qualidade é exigência do consumidor, seja para roupas caras ou baratas. Outra coisa: não me preocupei com desfile. A coleção vai direto para as araras e, quando você faz um desfile, você tem outro objetivo.
S: Qual a maior diferença de não ter que pensar em desfile?
Usei os tecidos que queria usar, tecidos mais finos e leves, o que foi algo inédito na C&A, e com diferentes estruturas de modelagens. Essa foi uma experiência que tem a ver com o que quero: fazer um trabalho mais próximo do meu consumidor. Acho legal falar aqui no Colherada que estou fazendo outra coisa diferente do que fazia (risos). Criei uma linha de homewear mais completa para Trousseau e uma linha de móveis, mesa e banho e acessórios para piscina e praia para Tok Stok. Vocês vão ver! Usei estampas que eu crio em meu ateliê. Uma linha acessível e exclusiva. Aliás, Sarah, unir essas duas coisas é o grande lance. Seja sua marca ou sua criação para marcas dos outros, é preciso fazer um trabalho mais exclusivo para um número maior de consumidores.
S: E ainda dá tempo para tocar o business na noite paulistana! Como começaram essas suas parcerias em casas noturnas e restaurante paulistanos?
Peguei o projeto do Club A no início, participei desde da produção dos uniformes das pessoas até a programação musical. Quando vi que o projeto do Club A tinha uma piscina, na hora lembrei que poderíamos usar aquele espaço. Criei o "Lunch Sunset", um evento que rola todos os domingos à tarde, em que as pessoas podem comer uma comida bacana, ouvir música boa. Passei o Reveillon em Florianópolis e vi que vários lugares faziam este tipo de coisa, tinha visto algo também em St. Tropez [na França] e achei essa referência muito legal, uma atmosfera mais relaxada. Funcionou em São Paulo. As pessoas estão amando. O som fica no comando do DJ Lucky, ele faz umas performances ao lado de uma artista japonesa chamada Fram, que é uma figura. Cada domingo convido uns amigos para serem hostess do "Lunch Sunset", no Club A. Nas últimas semanas vieram as modelos Renata Kuerten e Carol Francischini.
S: E o que você ouve?
Não gosto de rock muito pesado, adoro MPB, Rita Lee, Elza Soares, Chico, Caetano e batucadas com música eletrônica.
S: Sente que as outras parcerias, por serem em outras áreas da cultura (música e gastronomia), te ajudam de alguma forma a se inspirar e a continuar criando moda?Sarah, eu vivo viajando internamente e externamente, e estas novas coisas, na real, foram naturais, pois é a maturidade do trabalho que te permite voar para outras coisas. Sinto que todas as minhas vivências com música, artes plásticas e literatura sempre me infuenciaram diretamente. Presto muita atenção no que o meu filho Arthur (de 20 anos, que cursa Artes na Faap) desenha, em suas instalações artísticas, seus trabalhos da faculdade. Sempre incentivei meus dois filhos a fazerem aulas de teatro, a ouvirem todo tipo de música, trocarem informações culturais. Eles sempre viajam comigo mesmo quando vou a trabalho. Minha mulher, Riva, também. Acho que universo no qual eu os criei os ajudou a desenvolver esse lado artístico que agora volta para mim. Eu que estou aprendendo com eles no momento. Do nada, me vem uma ideia de tecido ou de corte de ombro na peça, uma gama de cores. É demais.
S: Queria que você falasse um pouco de sua descendência. Uma mistura interessante eu diria...
Minha mãe é romena e meu pai era do Iraque. Meu pai era apaixonado pela Carmen Miranda e veio ao Brasil para morar e fazer a vida dele. Ele conheceu minha mãe em Israel em 1949 e se casaram lá. Olha isso: ele a deixou por um ano e veio pro Brasil sem conhecer alguém por aqui! Nenhum amigo ou familiar. Um ano depois, ele já tinha engatilhado seu negócio com tecidos e foi buscá-la. Ele começou como representante, vendia tecido nos interiores de todo o Brasil. Quando se estabeleceu por aqui, montou uma estrutura de confecção... Eu, com essa história de meus pais, já com uma queda pela área de humanas, não pensei duas vezes e prestei História na faculdade. Adorava pesquisar a trajetória da humanidade, tem muito a ver com moda. Fora que me deu um repertório incrível. Se você fizer uma retrospectiva de todas as minhas coleções, vai ver a história do Brasil colonial ali. Sempre permeada por Carmen Miranda, claro (risos) e com algumas pitadas europeias. Afirmo que acabei construindo meu universo dentro da moda, a partir da história de vida de meus pais e da minha formação. Fico muito feliz quando me dizem que dá para identificar uma peça minha seja da época da Rosa Chá, na C&A ou agora a que vou lançar.
S: Por último, minhas "perguntas Colherada". Para quem você daria uma colher de chá no mundo da moda?
Para a estilista Cecília Prado. Ela tem um trabalho de tricô muito legal, mereceria aparecer mais pois sabe comercializar e vende bem, tem um canal de comunicação forte com o consumidor.
S: E em quem bateria com uma colher de pau?
Naquele Ronaldo Esper (risos). Sabia que a única vez que apanhei de meu pai foi com uma colher de pau? Acredita? Acho que eu tinha falado algum palavrão. Ele não gostava de palavrão.
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Últimos comentários
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regi - 18/12/2009 às 18:47:54
adorei
não sabia q o amir tinha deixado a rosa chá. que história incrˆvel de vida! barman, prof de história, filho de iraquiano, pai de artistas.... ele me surpreendeu!
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regi - 18/12/2009 às 18:47:56
adorei
não sabia q o amir tinha deixado a rosa chá. que história incrˆvel de vida! barman, prof de história, filho de iraquiano, pai de artistas.... ele me surpreendeu!
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