entrevista
Alcino Leite Neto, editor de moda da "Folha de S. Paulo", conta como interpreta a produção do país
Colaboração de Caru Ares
por Luty Vasconcelos - 21 de janeiro de 2010
Sabe quando você admira uma pessoa por seu trabalho? Se ela aparece por perto, como aconteceu comigo nesta edição da SPFW, dá uma enorme vontade de trocar ideias. Foi assim que conversei com o crítico de moda do jornal “Folha de S.Paulo”, Alcino Leite Neto, que tem uma opinião consistente e muito bem-embasada para falar da moda brasileira.Alcino é jornalista cultural, já foi correspondente em Paris e escreveu bastante sobre cinema e literatura. Em nossa conversa, disse se considerar ainda “um iniciante na moda” e me respondeu, com muita disponibilidade, como faz para ler e entender a tão difícil linguagem de uma das áreas mais mutantes da nossa cultura. O editor de moda também participou do questionário Colherada (confira o vídeo aqui)
Colherada: Por que é tão difícil fazer crítica de moda?
Alcino Leite Neto: Crítica de moda é difícil porque ainda não existe um bom repertório desenvolvido como existe, por exemplo, na crítica de cinema, na literatura ou na crítica de música. A crítica de moda é um fato muito recente. Na verdade, o que existe é um comentarismo muito amplo. Houve poucas iniciativas de crítica propriamente dita na história da moda, no mundo inteiro. E são raríssimos os críticos de fato sobre o assunto. Não estou falando dessas críticas esporádicas que se publicam inclusive no período da semana de moda. Ressalto Kate Betts, do “The New York Times”: ela tem independência, estatura intelectual e uma verve crítica muito acentuada. Estar com seus olhos bastante atentos aos elementos que ele coloca em cena durante o desfile. A gente analisa a parte do desfile que é a do espetáculo da coleção. Você precisa ver se os elementos estão concatenados, desenvolvidos e se expressam de maneira rica e complexa as ideias do estilista.
C: Você fala muito mais da modelagem da costura ou da linguagem?
A.L.N.: Todo mundo fala de modelagem. Eu lembro que quando lia um comentário de moda no jornal me entediava enormemente, imagino que os leitores não queiram essas minúcias todas. O espaço é muito pequeno pra você entrar em detalhes de processo de coleção de roupas, então eu faço uma síntese focada muito mais na linguagem, mas que leve muito mais informações das roupas.
C: Você acha que existe uma resistência à crítica negativa de moda no Brasil?
A.L.N.: Não, eu não acho que exista isso, não mais que no exterior. O que existe são maus hábitos, porque as pessoas estão acostumadas com certos processos de bajulação, de cordialidade infinita no texto escrito. Mas eu acho que nos últimos 10 anos os estilistas têm se acostumado cada vez mais com o fato de que a crítica não é negativa por ataque sub-reptício. Eles estão compreendendo que não é negativa, nem positiva, ela visa criar uma distância racional em relação à própria criação e fazer um comentário objetivo sobre o que foi exposto. É uma coisa que pode, por exemplo, ajudar o estilista a ter novos pontos de vista.
C: Qual é a sua relação com os estilistas?
A.L.N.: A minha relação é cordial no trato humano diário, quando os encontro em um restaurante ou em um lugar para entrevista, e distante -- sou obrigado a manter uma distância dos estilistas para que não haja um comprometimento do próprio trabalho jornalístico e crítico que eu faço. Muito embora existam pessoas que eu conheci e que gostaria de manter um vínculo de amizade, não posso fazê-lo por conta disso.
C: Quais são os elementos que você seleciona para fazer uma crítica? Como é que você faz essa coletânea de informações?A.L.N.: O primeiro [elemento] é você se informar, dentro do possível, da proposta do estilista sobre a coleção. O segundo é estar com seus olhos bastante atentos aos elementos que ele coloca em cena durante o desfile. A gente analisa a parte do desfile que é a do espetáculo da coleção. Você precisa ver se os elementos estão concatenados, desenvolvidos e se expressam de maneira rica e complexa as ideias do estilista.
C: Na sua opinião, o que é o design da moda brasileira e quais são os estilistas que representam bem esse conceito?
A.L.N.: Vários estilistas representam bem o design da moda brasileira. São estilistas mais renomados como Alexandre Herchcovitch, Oscar Metsavaht e Ronaldo Fraga, que basicamente estão reunidos aqui na semana de moda. Eu acho que a questão da moda brasileira de fato pode ser colocada não como uma busca de origens míticas do Brasil. Acho que é importante você refletir sobre a sua própria situação neste país, desde a paisagem até a questão do clima, que é importante, portanto, para a comparação da moda brasileira com a europeia.
C: Há quanto tempo você está trabalhando com moda? Por que se considera um crítico estreante?
A.L.N .: Eu sou estreante porque parece um século que eu estou fazendo moda, mas faz apenas quatro anos e é muito pouco para dominar o mercado que é tão vasto e complicado.
C: Em quais outras áreas da cultura você atuava antes de abraçar a moda?
A.L.N.: Cinema, literatura e um pouquinho de televisão. Quando você chega na moda, é um repertório tão novo de coisas que é natural passar um tempo sem aplicar o que você já sabe. Fiquei um bom tempo sem saber como aplicar o que eu já sabia de outras áreas na moda.
C: Uma pergunta de iniciante para estreante: essa agonia que eu sinto depois de assistir a um desfile como esse do Ronaldo Fraga, por exemplo, é normal?
A.L.N.: O desfile acontece num período muito curto, o desfile do Ronaldo foi um pouco mais longo, mas normalmente quando você assiste a um filme, por exemplo, que dura uma hora e meia, você tem tempo para produzir uma visão num longo espaço. Num desfile você tem aquela emoção súbita, aquela reflexão leve. Então, é muito complicado, porque às vezes só cai a ficha da apresentação no dia seguinte. Fazer o quê? É o jornalismo, se escreve hoje, mas depois pensa que errou em uma avaliação, que poderia ter dito isso ou aquilo de maneira diferente. Eu considero que o que eu faço no jornal é mais um comentário crítico do que uma crítica de moda. Crítica eu faço com mais vagar, com mais tempo.
C: Como você acha que a moda influencia a cultura?
A.L.N.: Eu vi que a moda é, por essência, uma coisa que domina o dia a dia das pessoas. Tem pessoas que usam roupa de maneira pouco racional, sem refletir sobre o fato. Aparência física por meio das roupas é importante no meio social, não para ter mais status ou menos status, mas a primeira coisa que você faz depois que toma banho é vestir uma roupa para enfrentar o mundo. Então ela é essa fronteira entre a pessoa e o mundo. É como você se coloca, é uma maneira muito poderosa de comunicação de cultura, embora seja um hábito cotidiano que se faz rapidamente. O sentido da moda na cultura muitas vezes passa por invisível.
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Últimos comentários
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dimitri - 28/04/2010 às 20:36:04
cathy ou kate????
bem legal a entrevista. mas será que o alcino não quis dizer Cathy Horyn do New York Times? A Kate betts é da revista Time e não chega aos pes da Cathy.
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