novo talento

Cantora Juliana Kehl embala com samba, eletrônico e poesia autoral

por Martha Lopes - 22 de janeiro de 2010
Juliana Kehl por Caroline BittencourtNa voz, imagine uma mistura de Leila Pinheiro com Elis Regina. A música carrega os tons do samba e do eletrônico, a mistura de "tintas", como ela mesma diz. E as letras levam a marca autoral que anuncia Juliana Kehl, de 30 anos, no hall das novas cantoras brasileiras em que vale a pena ficar de olho.

Por pouco, no entanto, a música perde esse talento. Quando adolescente, Juliana integrou o coral da Escola Rudolf Steiner, que a permitiu se apresentar em Nova York aos 17 anos. Contudo, a garota optou por direcionar a carreira para as artes plásticas, em que se graduou pela FAAP.

Não tardou, enfim, para que a paulistana assumisse a veia musical. Anos depois musicou poemas da irmã, a psicanalista Maria Rita Kehl. O resultado é o álbum de estreia independente "Juliana Kehl", com 12 canções -- dez delas de sua autoria -- recheadas de poesia e belas histórias.

Ficou curioso? Dê uma passada no MySpace da moça. E, abaixo, veja a conversa rápida que o Colherada teve com ela.

Colherada Cultural: Como migrou das artes plásticas para a música?

Juliana Kehl: Na verdade, comecei a cantar e pintar mais ou menos ao mesmo tempo. Na adolescência, participei de um coral incrível na Escola Rudolf Steiner e nos apresentamos no Carnegie Hall, aos 17 anos! Mas, apesar de todo esse incentivo, as artes visuais foram mais forte naquele momento de decisão, faculdade etc. A música foi voltando aos poucos e tomando cada vez mais espaço. Acho que a vontade de fazer arte é algo muito forte que está acima da sua manifestação física, formal. Pintar, dançar, cantar são manifestações desse desejo de expressão, podemos nos utilizar deles com total liberdade.

C: Você mistura gêneros -- eletrônico, samba... Como define o som que quer fazer?
J:
Definir sonoridades é sempre complicado. Mas, quando alguém me pega desprevinida e pergunta: o que você canta?, eu respondo: música contemporânea brasileira. Meu som é uma interação entre muitas influências, que vão de música tribal africana até erudito. O território da criação não tem limites de estilos. Passeio pelo samba, passo pelo eletrônico, busco referências até mesmo no folclore. Acredito que o material poético possa estar em muitos lugares, até nos mais inusitados. A minha identidade é mesmo a mistura dessas "tintas" (risos).

C: Quais são suas principais influências?
J:
Minhas influências são muitas. Cresci ouvindo Chico, Caetano, Gal, Elis, essas influências fundamentais. Também ouvi muita música árabe tradicional, indiana e africana. Amo Stevie Wonder, Erykah Badu, ouvi muito a Julie London. Hoje em dia ando ouvindo Fiona Apple e Regina Spektor. Não me preocupo muito se estou ouvindo uma canção composta há 30 anos ou 6 meses; se é boa e está me dizendo algo, isso é o que importa.

C: E sua inspiração para compor, qual é?
J:
Minha música é muito autobiográfica. Normalmente vivo alguma situação e pontuo na canção. Mesmo assim, não tenho um método, minha maneira de compor é errática. Às vezes faço várias canções em um mês e passo outro sem nenhuma inspiração. Procuro manter esse processo bem natural e orgânico, sem cobranças.

Juliana, por Caroline BittencourtC: Quem você admira desta geração e entre os músicos mais clássicos?
J:
Gosto de muita gente. Para citar alguns dos meus contemporâneos: Leo Cavalcanti, Tulipa Ruiz, Karina Buhr, Tiê e Céu. Dos clássicos: Tom Jobim e Chico Buarque foram grandes influências. Gal como intérprete.
 
C: Hoje a música brasileira desfruta de cantoras jovens que compõem, como é o seu caso, o da Céu, Ana Cañas etc. A que você atribui isso?
J:
Acho que o espaço social, político e artístico da mulher é relativamente recente no Brasil. Só em 1979 a Joyce fez uma música no eu-lírico feminino, escrita de forma ostensiva, e foi duramente criticada por isso -- imagine 1979! Hoje, a mulher conquistou esse espaço definitivamente e acredito que o afloramento das novas compositoras é prova disso. Daqui pra frente será cada vez mais interessante observar e participar desse movimento.

C: Você pretende continuar independente? Tem outros projetos de trabalho e shows em vista?
J:
Ser idependente é o espírito da nossa época e fiquei muito feliz por ter lançado meu disco dessa forma. Ao mesmo tempo, vejo o esforço das gravadoras para se adequar aos novos paradigmas da indústria fonográfica. Acho que tudo é válido desde que preserve a soberania do artista sobre a sua obra e a liberdade de criação.
Tenho alguns projetos que vão se confirmar logo mais. Shows, depois do Carnaval! Não vejo a hora.
Últimos comentários
  • Raugeston Bizarria - 22/01/2010 às 14:52:59

    Muito talento e sensibilidade

    Juliana Kehl tem talento e sensibilidade inatos revelados no disco com excelente sonoridade. Parabéns pela entrevista inteligente e com forte conteúdo, resultados do conjunto perfeito de ótimos entrevistador e entrevistada.

  • Vina - 22/01/2010 às 18:36:26

    Musa eterna

    Além de cantora, compositora, pintora, dançarina do ventre e de flamenco, ela é uma tremenda gata e o pior de tudo... uma simpatia de pessoa!!!

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