sonhos coloridos
O fabuloso universo de Marc Chagall
Três séries de gravuras expostas no Masp convidam a despertar – e saborear – sensações
por Adriana Guivo - 29 de janeiro de 2010
Marc Chagall (1887-1985) deu vazão à sua emotividade em uma época marcada pelo rigor racional de figuras geométricas, inspiradas nas máquinas conduzidas pelos proletários ao término da Revolução Russa. Ao invés de enveredar pelo caminho da abstração, como fizeram vários vanguardistas, Chagall optou por um figurativismo de imagens fabulosas. Através de traços simples, seus personagens se soltaram pelo espaço como se fossem bolhas de sabão ou delicadas plumas, apenas transitando sem destino pelo campo de suas representações. Em “O mundo mágico de Marc Chagall – Gravuras”, atualmente exibida no Masp, 178 litografias mostram um empenho tão bem estruturado quanto o que se vê no que é seu carro-chefe – a pintura. A técnica consiste em desenhar, com lápis dermatográfico, sobre uma pedra retangular e espessa, preparada por horas com pós arenosos e vernizes. Qualquer deslize ao passá-la na prensa pode resultar em rachaduras e na perda do desenho realizado.
Agora imagine que cada um dos trabalhos da série mitológica “Daphnis et Chloé” possui até 25 pedras - ou matrizes, uma para cada cor que ele desejou ver impressa. São vinte e cinco vezes o processo de gravar sobre uma mesma folha, para então dar como finalizada uma única peça.
Saber que o processo de execução envolve, ao mesmo tempo, esforço braçal e sensibilidade talvez seja uma informação que amplifique o seu valor, mas seja também dispensável. Porque ao se observar o conjunto dessa obra em específico, fato é que a potência das cores é algo tão vívido que basta saborear as sensações despertadas. Não estranhe se lhe parecerem janelas abertas para um universo paralelo, viagens por sonhos alheios ou uma dança sobre um palco cênico. Menos ainda, se elas parecerem tomar vida própria e se moverem ao mínimo piscar de olhos.
Devido à herança de sua vivência como cenógrafo e diretor teatral, além de projetista de vitrais sacros, suas composições possuem uma dinâmica de elementos que fazem nossa visão se mover o tempo todo, de forma quase hipnótica. É como se cada imagem concentrasse em si um longo texto, e precisasse dar cabo de toda uma narrativa implícita através de poucos símbolos. Em sua série “Bíblia”, a austeridade do tema religioso se viu melhor representada por diversos tons de cinza e negros profundos; nela, as cores, além de preencherem os espaços, conduzem o olhar como se lêssemos as páginas de um livro.
Dessa forma, Chagall criou não só uma marca inconfundível como, a partir de histórias nascidas com a força da cultura popular, fez nascerem fábulas próprias, capaz de se comunicar com quem privilegiasse a livre imaginação à sistemática lógica.
“O mundo encantado de Marc Chagall – Gravuras” até 28 de março no Masp. Av. Paulista, 1578 – São Paulo. Tel: (11) 3251-5644. De terça a domingo e feriados: das 11h às 18h. Às quintas: das 11h às 20h. Ingressos: R$ 15,00 (inteira), R$ 7,00 (estudantes). Gratuito até 10 anos e acima de 60 anos. Às terças a entrada é gratuita para todos.
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