fato histórico
O mês em que Paris foi Veneza
Fotografias tiradas há cem anos, durante inundação da capital francesa, são raridades documentais
por Adriana Guivo - 30 de janeiro de 2010
Paris ainda possuía trens a vapor quando viveu dias de Veneza, em consequência de um transbordamento histórico. Entre 21 e 28 de janeiro de 1910, fortes chuvas e o degelo da neve, caída intensamente durante os meses anteriores, fizeram com que o rio Sena aumentasse em mais de 8 metros o seu nível. Pontes como a elegante Alexandre III foram praticamente encobertas, interrompendo-se o fluxo das embarcações por sob elas. A saída foi apelar para o uso arcaico de canoas – as primas pobres das românticas gôndolas – para todo tipo de transporte, sendo muitas vezes a única maneira de interligar os pontos de alagamento. A paisagem da capital francesa viu-se transformada por tempo limitado, mas fato é que faltou pouco para a reforma urbanística de Haussmann não ir literalmente por água abaixo durante os mais de 30 dias de submersão.
Comemorando o centenário desse acontecimento, a prefeitura parisiense organizou a “Paris Inondation 1910”, uma mostra com algumas das mais peculiares imagens captadas na época. Separadas por núcleos como “Le parisien au spetacle” [os parisienses no espetáculo], “Mieux vaut em rire” [o melhor é rir] e “Le soutien aux sinistrés” [suporte aos estragos], ainda foram inclusos cartazes bizarros – como o que explica que os padeiros não estavam se aproveitando da situação para aumentar o preço das baguetes – e gravuras conclamando a donativos civis em prol da reconstrução e ajuda aos mais necessitados.
A fotodocumentação registrou cenas hoje vistas como pitorescas: paralelepípedos boiando, passarelas praticamente medievais instaladas para que fosse possível transitar pelas ruas, e o piso inferior do museu d’Orsay, que abrigava uma exposição, virar um grande lago enclausurado. É de se imaginar que o Louvre e bibliotecas tiveram suas áreas de subsolo afetadas de alguma forma por essa inundação. Os prejuízos culturais, se houveram, foram provavelmente mínimos e recuperáveis, diferente do que vemos se desenrolar cem anos depois em localidades como Cunha e São Luiz do Paraitinga, no interior de São Paulo, ou em Águas Calientes, no Peru, devastadas por chuvas incessantes.Aos que não irão a Paris até o término da mostra, em 28 de março, vale conferir algumas das fotografias expostas através dessa galeria do Colherada.
“Paris Inondation 1910” na Galerie des Bibliothèques. 22, rue Malheur – Paris.
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