sensível
Em "A Mulher Foge", David Grossman mostra sua grandeza como escritor
por Martha Lopes - 18 de fevereiro de 2010
O que uma mãe pode fazer diante da triste realidade de ter um filho em combate de guerra? A impotência move Orah a criar um jogo maluco: enquanto se refugiar em um lugar ermo e pensar no filho, Ofer, nada de mal vai lhe acontecer. Esse percurso norteia "A Mulher Foge", obra do israelense David Grossman de pungente sensibilidade.Ambientada em Israel, sob o pano de fundo do conflito entre judeus e palestinos, a trama se constrói em partes, unindo fragmentos como a juventude de Orah, quando ela adoeceu e ficou na área de isolamento de um hospital, momento em que conheceu Ilan, que viria a ser seu marido, e Avram, um eterno amigo e amor mal-resolvido. Conhecemos também o instante em que, já divorciada e diante de uma missão de guerra do filho, a mulher decide sair em uma trilha pelo país, sem acesso a notícias, ao lado de Avram, que, já à meia-idade, é uma pessoa perturbada pela tortura que sofreu como prisioneiro de guerra.
Na viagem em que os dois embarcam, Orah descobre o destino de fuga mais seguro: o passado. Ela relata a Avram a gravidez de Ofer, sua infância, sua relação com Adam, o outro filho de Orah, além de tudo o que caracteriza o filho em perigo, desde características físicas a psicológicas. É uma narrativa emocionante e extremamente feminina, em que, à medida em que descreve sensações tão caras à mulher e à maternidade, David Grossman mostra sua grandeza como escritor e sua imensa compreensão da alma humana.
Além dessa sensibilidade na construção dos sentimentos e da destreza impecável, que permite que o autor descreva as memórias com verossimilhança e sem pieguices, colaborou o drama pessoal de Grossman. Como ele mesmo esclarece no livro, seu próprio filho estava em combate quando ele escrevia o livro. Assim como Orah, ele sentia que podia protegê-lo enquanto redigisse a obra, mas o filho acabou morto. Na época, a história estava quase pronta. Segundo Grossman, porém, a tragédia talvez tenha sido responsável pelo "eco de realidade" que impera no livro.
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