tema do mês: pecados capitais

A alegoria dos sete vícios retratada nas artes

El Bosco e Kendell Geers criaram suas versões medieval e contemporânea com acidez crítica

por Adriana Guivo - 22 de fevereiro de 2010
Retratar a vida da Madonna e do menino Jesus remonta há muito tempo – vem da época em que os artistas plásticos só tinham a temática bíblica para se inspirarem e desenvolverem as suas criações. Sem o show bizz ou o carnaval carioca como pano de fundo, restava imaginar como teria sido o nascimento na manjedoura, a vinda dos Reis Magos e as brincadeiras com o primo João Batista. Obras assim são abundantes em museus e igrejas europeias, que preservam quadros e afrescos produzidos desde a Idade Média.

A versão de Bosch para os pecados capitais tem Cristo no seu centroPintar era um ato a ser feito de acordo com a moralidade católica vigente. Em fins do século 15, o homem ainda não havia se tornado a medida de todas as coisas, mas já haviam sido determinados os vícios que ofendiam a Deus, bem como as virtudes que deviam ser almejadas.

Nesse contexto, o pintor flamenco Hieronymus Bosch compôs sua versão dos pecados capitais – talvez a mais famosa de todas.

Resguardada no Museu do Prado, na Espanha, se assemelha a uma mandala. Sobre uma superfície de madeira, foram pintados 5 círculos, estando no central a representação alegórica da ira, inveja, avareza, gula, preguiça, luxúria e orgulho. Nos demais, dispostos nos cantos do quadro, Bosch incluiu suas visões do julgamento e morte do pecador, o inferno e a glória eterna. Uma frase nos avisa: “cuidado, cuidado, Deus vê”.

Mensagem mais direta da onipresença divina impossível. Com os fiéis mais dominados que em tempos de Big Brother, a pintura devia servir de estandarte para evangelizar. Para analisar seu enredo hoje é necessário um manual de simbologias, sem o qual ela se torna uma incompreensível colagem de situações, que só o objetivo título nos salva: “Os Sete Pecados Capitais e as Últimas Quatro Coisas”.

O artista, conhecido por retratos grotescos e sombrias cenas do mundo, foi revisto por alguns historiadores das épocas seguintes como um herege, devido a sua crítica, implícita nos detalhes das pinturas, aos excessos cometidos pela Igreja. De qualquer forma, é praticamente um consenso que deriva dele a arte com narrativa fantástica ou surrealista, que permitiu que Salvador Dalí derretesse relógios ou criasse mulheres com gavetas no corpo.

A RESSIGNIFICAÇÃO DO VALOR RELIGIOSO NA CONTEMPORANEIDADE


Autorretrato do sul-africano Kendell GeersDando um salto de cinco séculos, vemos um artista ácido, atacando principalmente as inconformidades sociais à sua volta. Kendell Geers, sul-africano descendente de holandeses, não poupa esforços para criticar as condutas políticas de seu país ou do mundo como um todo. Provocativo, causa polêmica com quase todas as suas propostas, que por vezes só é chamada de artística por mera formalidade. Em decorrência disso, uma mostra sua chegou a ser vetada na véspera de abertura.

Geers foi contrário ao Apartheid, tendo migrado para os Estados Unidos até a libertação de Nelson Mandela; mudou sua data de nascimento para maio de 1968 – época em que ocorreram revoluções socioculturais, em locais como Paris e Praga; e ainda portou-se como um cigano, vivendo às vezes por poucos dias ou semanas em uma cidade, numa espécie de performance da vida cotidiana. Um artista, digamos assim, nem um pouco entediante.

Por suas próprias palavras diz: "Sou um branco africano vivendo em um momento em que pessoas armadas com lâminas de barbear podem colidir com os edifícios mais poderosos do mundo, uma época em que 15 milhões de pessoas na África do Sul tem Aids, um momento em que os Estados Unidos podem declarar guerra ao Iraque sem nenhuma outra razão além do cumprimento do seu próprio desejo. Vivo em um tempo onde Contradição, Verdade, Desejo, Paixão e Anarquia são nada mais que nomes de perfumes. Vivo em uma era de reprodução digital, em que a verdade não existe mais em uma imagem, em que cada imagem pode ser alterada e mudada e qualquer um pode ser apagado ou inserido na história".

Embora seja contrário a instituições afeitas a regras, participa constantemente de exposições de peso no circuito artístico. No Brasil, será visto este ano na Bienal de São Paulo, tendo já se apresentado na cidade em 2000, com uma obra que julgava a massificação televisiva nos quatro cantos do planeta, cujo papel doutrinante outrora cabia ao catolicismo.

Conhecedor da força das palavras, Geers desenvolveu um esquema que as transforma em simbólicas abstrações, que só um olhar obstinado consegue decifrar. Com tal técnica, criou sua versão dos sete pecados capitais, cujo título – tal qual Bosch –  é a única entrada para a compreensão da obra.

As representações da avareza, orgulho e gula, na instalação “Seven Deadly Sins” (2006), de Kendell GeersCada um dos nomes dos vícios foi escrito em inglês, com lâmpadas de luz negra em neon. Com um jogo de espelhamento quadruplicado, a composição cria uma espécie de desenho tribal.  Ao se observar a obra, a luz incide sobre as pessoas, e qualquer elemento branco se torna momentaneamente fosforescente.

A leitura da obra, em sua estrutura mais básica, pode se referir à maleabilidade necessária para que se conviva em um ambiente onde outra cor predomina – numa alusão direta a diferenciações raciais. E, ainda, em como os vícios instituídos pela religião se transformaram em algo que já não discernimos as arestas, tornando-se em parte alegoria, porém muito mais um simples signo estético – como tantos outros que nos cerca e dos quais nos agradamos, sem nos darmos conta de sua significância.
Últimos comentários
  • guto leite - 22/02/2010 às 11:37:33

    no crivo

    Que ótimo texto! Principalmente se levarmos em conta a tarefa complicadíssima de equilibrar as imposições católicas, a representação artística e tanto tempo de história. No crivo!

  • Sandro De Gasperis - 25/02/2010 às 01:02:38

    Ecletismo é pouco!!!

    Muito legal o texto, justamente a variedade no conteudo é o maior charme das colheres. Questões de reflexão tão acentuadas é que na minha opinião fazem a gente pensar mais e melhor. Parabéns bj

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