indústria

O massacre do circuito de cinema

Por Thiago Stivaletti*

por Mr. Fork - 24 de fevereiro de 2010
Thiago Stivaletti“Bastardos Inglórios”, um dos melhores filmes de Tarantino, estreou no começo de outubro, uma semana antes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Sete dias depois, o maior evento de cinema da capital paulista tomava 17 salas da cidade – justamente no circuito alternativo do filme –, e a produção começava a sair de cartaz.

“Abraços Partidos”, de Almodóvar – que não é um dos melhores do diretor –, estreou no começo de dezembro. Uma semana depois foi a vez de “Aconteceu em Woodstock”, de Ang Lee – criativo, colorido, filme feliz como poucos.

Conheço muitos amigos que estavam loucos pra ver os dois, mas só devem conseguir fazê-lo nos próximos meses, em DVD – ou talvez comprando o filme no camelô da esquina. Compras de fim de ano, festas da firma, reuniões de amigos, compras de presentes – a última coisa para a qual sobra tempo no fim de ano é ir ao cinema.

E no entanto as distribuidoras, as “majors” em especial (Sony, Fox, UIP, Disney), insistem em “jogar” esses filmes no circuito na pior época do ano. Um gargalo que começa com o final da Mostra, no início de novembro, e se estende até o Natal, antes que as salas sejam tomadas pelos “blockbusters” – neste ano, “Avatar” e “A Princesa e o Sapo”, além do projeto de blockbuster nacional “Lula, o Filho do Brasil”, que decepcionou na bilheteria.

A lista de filmes sem lugar ao sol de fim de ano é interminável: “O Fantástico Sr. Raposo”, primeira incursão do ótimo Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums”) na animação; “É Proibido Fumar”, brasileiro que dez entre dez críticos de cinema recomendam – só pra citar dois que eu mesmo não consegui ver até escrever este texto... Pelo menos consegui ver “Tokyo!”, reunião de três curtas sobre a capital japonesa, dos quais dois (do francês Leos Carax e do coreano Bong Joon-ho) grudam na memória. Estava em uma única sala do HSBC Belas Artes, prestes a sair de circulação.

Não sei se as distribuidoras possuem alguma restrição de contrato que as obrigue a lançar os filmes correndo até o fim do ano. Mas ou elas mudam essa estratégia, e deixam pra estrear alguns desses filmes ao longo do primeiro semestre, com calma, ou o mercado de cinema no Brasil tende a perder força – principalmente aquele mais voltado ao nicho de arte, já sufocado por mil problemas de produção, aqui e no mundo todo.

Tudo bem, hoje as opções para ver filmes são infinitas, do cinema ao download de filmes na internet. Mas o cinema, assim como a TV, é um espaço social importante que gera um debate e uma repercussão que os filmes mais consistentes precisam para sobreviver. Matando o cinema, um filme chega sem força ao DVD. A sétima arte precisa de uma forcinha em meio ao excesso de novas mídias do século 21.

O descaso dos grandes estúdios e suas distribuidoras com filmes aclamados no mundo todo, porém longe da lógica de lucro direto dos blockbusters, não vem de hoje. Para entender como o filme (ou, na linguagem mercadológica, o “conteúdo”) sofre as mais diversas pressões desde o momento do roteiro até a distribuição nas salas, vale a pena ler um livro excelente lançado há poucos meses no Brasil: "O Grande Filme – Dinheiro e Poder em Hollywood" (Summus), de Edward J. Epstein.

Em um trabalho que consumiu mais de cinco anos, Epstein pesquisou os balancetes e relatórios dos grandes estúdios para entender como funciona a grande engrenagem responsável pela maior parte dos produtos de entretenimento do mundo. Há pelo menos 15 anos, os grandes estúdios (Columbia, Paramount, Universal, Fox) não são mais as cabeças dessa engrenagem. Em 1995, o Universal Studios, por exemplo, foi comprado pela Seagram, uma grande fabricante canadense de bebidas alcoólicas. A Seagram foi vendida para a multinacional francesa Vivendi, que tem negócios em mídia e em fornecimento de água. Em dívidas, a Vivendi foi vendida à poderosa General Electric, que produz absolutamente tudo que tenha a ver com tecnologia. Desde então, a Universal associou-se à NBC, um dos maiores canais de TV dos EUA.

Na realidade, a produção dos filmes envolve uma despesa tão grande – dos cachês milionários dos astros e diretores até o aluguel de equipamentos e locações – que pouquíssimos filmes dão lucro com seu lançamento no cinema. A associação com a NBC é um exemplo de como o lucro de um grande filme hoje não se faz apenas com as salas de cinema, mas depende das vendas em DVD, da exibição na TV paga e na TV aberta, da fabricação de games derivados etc.

Como diz um grande executivo de estúdio, parodiado no filme "O Jogador", de Robert Altman: “em Hollywood, não existe o conceito de lucro”. Se as despesas são grandes, os executivos também ajudam a maquiar os balanços para que um eventual lucro não apareça, pois a divisão dos lucros está prevista nos contratos de muitos atores, agentes, fornecedores. Se todo mundo fosse pago em dia, a máquina não teria como andar – pelo menos é o que alegam os estúdios.

Nessa engrenagem sem tamanho, difícil imaginar que modestos filmes de autor sejam tratados com carinho pelas grandes distribuidoras. Ao cinéfilo, resta continuar correndo atrás do circuito apertado – ou ceder cada vez mais aos apelos das novas tecnologias, baixando filmes para escapar desse mecanismo perverso.

* Thiago Stivaletti é jornalista da área de cultura e variedades. Nos dois últimos anos, cobriu o Festival de Cannes para o portal Universo Online (UOL). Já trabalhou nas redações da "Folha de S.Paulo", jornal "Valor Econômico" e Editora Abril.
Últimos comentários
  • Maria Carolina - 24/02/2010 às 21:49:13

    Animador

    Que maravilha poder saber que há, ainda, pessoas sensíveis e, ao mesmo tempo, críticas!!! O cinema nos ajuda a ser, a viver ... Nós precisamos do direito de vê-lo sempre! Parabéns!

  • kinoshita - 25/02/2010 às 23:57:28

    mto bom

    é isso aí...eu nem sabia que "Tokyo" já tinha entrado, e saído, de cartaz! abs

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